A chuva caía do lado de fora do trem. Era como se há séculos não chovesse. A fúria das águas inquietava-me. Trovoadas irrompiam o barulho dos vagões do trem. À medida que a locomotiva ia percorrendo seu trajeto, a paisagem mudava. E as pessoas também.
Eu estava no último vagão, como de costume. Vestia um moletom azul com listas verdes e uma bermuda de brim velho. Estava encharcado pela chuva que teimava em cair. Meu destino: a última estação, em São Leopoldo.
Quase na metade do percurso, de aproximadamente uma hora, ela embarcou. Na estação Canoas, se me lembro bem. Confesso que mal reparei na garota, de princípio. Mas, à medida que os trilhos iam sendo deixados para trás, notava que havia algo incomum naquela mulher, que aparentava ter cerca de 30 anos. Esguia e de pele clara, os cabelos vermelhos teimavam em se rebelar, devido à tempestade.
Ela vestia um casaco de lã, ensopado. As calças, assim como minha bermuda, eram de brim. Usava um sapato marrom, daqueles que as mulheres adoram. A mulher segurava um guarda-chuva azul entreaberto, rente as pernas. O balançava compassadamente, como se tocasse uma melodia: a canção da alma.
Seus olhos tinham uma cor azul clara, límpidos como as águas do mais escondido dos rios. Olhavam serenamente para o nada. A mulher não sorria, mas sua expressão dizia o contrário. Transparecia uma felicidade plena, como se seus pensamentos estivessem voando.
À medida que começava a observar com mais atenção aquela mulher, via que ela estava feliz. Seus olhos transluziam uma alegria que há muito não via em alguém. Era como se ela estivesse revendo em sua memória um maravilhoso filme. Seria algo que ocorrera há bem pouco tempo? Ou uma lembrança de muitos anos que ela recordava em seu momento cordial? Não sabia dizer ao certo.
Confesso que aquela cena me intrigou. Comecei a idealizar o que ela estaria pensando. E como num passe de mágica, transportei-me imediatamente para os confins do imaginário. Viajei a tal ponto, que me tornei espectador da película de vida daquela mulher. A chuva dava um tempero especial à cena.
A mulher estava no parque. Sentava ao lado de seu amado, junto ao pé de uma árvore. Riam como nunca. Trocavam carícias amorosas enquanto dividiam uma maçã do amor. Ele mal conseguia comer, devido ao aparelho recém colocado nos dentes.
Enquanto observava a cena, dava-me conta de quão belo era o lugar onde estava. A paisagem era linda. O parque era rodeado por árvores tropicais, que contornavam um lago de águas turvas. Devia ser primavera, pois o cheiro de jasmim e as árvores floridas completavam a sensação de paz no lugar. Consegui identificar rosas, hortênsias e margaridas. O filme era antigo. A mulher aparentava ser mais jovem que o rapaz. Deviam estar próximos à casa dos 20 anos, recém saídos de uma adolescência rebelde.
O rapaz, como mal conseguia morder a maçã, precisava recorrer sempre ao auxílio de sua amada. Ela delicadamente mordia a base açucarada da maça do amor e dava a ele, na forma de um beijo doce. A cada mordida, um longo e demorado beijo acontecia.
Ao ver o terceiro beijo enlambuzado, confesso que senti ciúmes do rapaz. Mas logo passou, de tão impressionado que eu estava. Desprendi meus olhos do casal para voltar-me ao fundo da cena onde, o sol começava a findar. Seria aos poucos substituído por uma lua cheia.
O trem pára. E como num passe de mágicas, meus pensamentos regressam das lembranças daquela mulher. Ela continua lá, sentada e olhando para o nada. Incrível. Creio que a mulher teria ficado ali a tarde inteira, recordando.
A chuva continua forte. Mais pessoas entram e saem do trem, que retoma seu trajeto. Na estação seguinte, a mulher deixa a película em que estivera envolta. Retorna a realidade e, pela primeira vez sorri. Um sorriso angelical, como se tivesse despertado de um lindo sonho.
O trem para novamente. A mulher pega suas coisas e respira fundo. Abre o guarda-chuva e sai do trem, desaparecendo na penumbra.