Os primeiros raios de sol já apontam no horizonte quanto Heitor chega ao Morro da Cruzeiro. Mathias está à sua espera, junto com toda a equipe da polícia. O esquadrão comandado por Petrucci se posicionou em diversos pontos da favela. Ninguém entra. Ninguém sai. A esta altura, descobrir a localização do esconderijo de Chiclete era uma questão de tempo.
- Só estávamos te esperando para começar a varredura. – comentou Mathias.
- Valeu. Mas agora vamos pegar esse safado! – respondeu Heitor.
As ruas estreitas e esburacadas do Morro da Cruzeiro são um prato cheio para os traficantes. De qualquer ponto era possível disparar um projétil que atingisse os policiais. Mas isto não ocorreu. A manhã já pairava no ar e, a esta altura, o tráfico descansava. Sem contar que não era atrás deles que a polícia estava. Mas sim de Chiclete. E a notícia da caçada já havia se espalhado pela favela.
Anisha para seu Meriva prateado na entrada da favela perto das seis da manhã. A esta altura, Heitor já está com Mathias impregnado nas entranhas do Morro da Cruzeiro.
O carro de Heitor passa em frente ao Mercado do Alemão. O detetive está tão obcecado em encontrar o esconderijo do pistoleiro que nem percebe que Renata vem descendo o Morro. Um pouquinho mais de atenção e Heitor a teria pego. O detetive sabia que ela era prima de Mixirica. E a sua presença no Morro da Cruzeiro certamente era indício de que estaria perto de encontrar Chiclete.
Pouco depois Heitor passa por um casebre abandonado. Para o carro em frente e observa. As luzes estão apagadas. A grama alta e os móveis atirados à rua dão a impressão de que ninguém vai lá há séculos. A antiga boca de fumo era o último lugar onde a polícia iria procurar. Mas, um detalhe chamou a atenção de Heitor.
- Tá vendo ali Mathias? Marcas de carro.
- O casebre está abandonado há meses. Vamos procurar num outro lugar. O Chiclete deve estar num lugar bem protegido. Isso aí não serve nem pra cativeiro.
- Vai tu então. Eu vou descer e checar este muquifo.
- Tá bom. Tá bom. Vou contigo. – resignou-se Mathias.
Heitor estaciona o carro poucos metros adiante. Os policiais se preparavam para descer quando notam algo estranho. Um opala verde metálico estaciona em frente ao casebre. A película nos vidros esconde quem está no carro. Só é possível ouvir a barulheira. O rap fica mais alto quando as portas se abrem. Uma fumaça inebriante sai de dentro do veículo. A causa, Heitor e Mathias descobrem instantes depois, quando quatro pessoas saem pelas portas recém abertas. Duas delas fumavam um grande empalhado de maconha.
Os policiais notam uma presença familiar entre os elementos que agora já se preparam para entrar no casebre. Um homem magro, com cerca de 1,80 m. Correntes no pescoço, calça larga, uma camisa do Chicago Bulls e um boné virado para trás. Um tipo inconfundível.
- Aquele ali não é o Paraíba? – perguntou Mathias.
- É sim. Não tem como confundir o pilantra. – respondeu um intrigado Heitor.
- Tem coisa aí meu. Que diabos o Paraíba tá fazendo aqui esta hora?
- Não sei. Mas é o que vamos descobrir. E agora!
- Calma Heitor. Vamos esperar um pouco pra ver se tem alguém na casa.
- Ok.
Heitor e Mathis descem do carro e se escondem atrás de um muro que circunda o casebre. De lá, conseguem observar sem serem notados.
- Parece que tem alguém lá dentro. Uma luz se acendeu. – observou Mathias.
- Interessante… Chama reforço.
- Heitor, tu acha que é o Chiclete?
- Creio que sim.
Mathias pega seu celular e liga para Petrucci. Informa a localização dos dois e manda o esquadrão se dirigir ao local assinalado.
- O esquadrão chega em 20 minutos.
- Porque eu tenho a sensação de que não temos 20 minutos. – respondeu Heitor.
A poucos metros dali, Mixirica escuta o som vindo da rua. A presença de Paraíba e seus capangas agora já não é mais novidade para os ocupantes do casebre.
- Tá ouvindo o baguio? Parece que vem gente aí Chiclete.
- Pega o cano Mixirica. Deve de ser os comédia.
- Vo dar uma olhada.
Mixirica pega a pistola e vai até a porta do casebre. Pelo buraco de bala que havia na porta, o meliante avista seus comparsas de crime vindo em direção ao casebre.
- Tá tranquilo Chiclete. É o Paraíba. Tens uns truta com ele.
- Firmô.
Mixirica abre a porta do casebre para o esperado encontro de Paraíba e Chiclete. O chefe do tráfico e seus três capangas entram sem demora.
- Fala Paraíba. Firmeza?
- É nóis! Cadê o Chiclete? Eu quero ver a minha grana. Os comédia já cercaram a favela. O Morro tá um caos. E eu to bolado com isso. Tu sabe o que eu faço quando to de mau humor, né não Mixirica?
- Calma mêrmão. Vo chamar o Chiclete.
Chiclete sai do banheiro com uma cara de marra. Encara Paraíba com o desprezo que damos ao nosso pior inimigo. Sem perder muito tempo, ele saca a arma e começa a falar:
- A parada é a seguinte mêrmão. To precisando sumir por uns tempos. Dois milhões dá pra tu me ajudar?
- Cadê a grana? – respondeu Paraíba.
- Quando eu tive num lugar seguro te lanço as verdinhas.
- Tu acha que eu sô otário mêrmão? Não sô mané que nem teu amigo ali. Se tu quiser posso te mandar pra um lugar que nunca mais te acham.
Paraíba coloca sua pistola na cara de Chiclete. O pistoleiro continua a encarar o traficante. Por alguns segundos os dois trocam olhares de morte. Chiclete se afasta e responde:
- Te dou metade agora e o resto quando eu estiver seguro.
- Ok.
Chiclete vai até o banheiro e pega o dinheiro. Traz um milhão de reais e entrega à Paraíba.
- Isto aqui dá pra tu me tirar da favela?
- Agora tu falou a minha língua sangue bão.