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Releia: Heitor contra o Crime

Se você já leu as histórias do detetive Heitor González, esta é uma ótima oportunidade de rememorar todos os capítulos desta trama. Mas se ainda não conhece, é uma ótima oportunidade para conhecer os caminhos que levaram o detetive à ter um encontro com seus fantasmas do passado. Confira:

Morte Anunciada
– O conto que deu origem às histórias do detetive Heitor González.

Fantasmas do Passado
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18 – final

A tempestade

A chuva caía do lado de fora do trem. Era como se há séculos não chovesse. A fúria das águas inquietava-me. Trovoadas irrompiam o barulho dos vagões do trem. À medida que a locomotiva ia percorrendo seu trajeto, a paisagem mudava. E as pessoas também.

Eu estava no último vagão, como de costume. Vestia um moletom azul com listas verdes e uma bermuda de brim velho. Estava encharcado pela chuva que teimava em cair. Meu destino: a última estação, em São Leopoldo.

Quase na metade do percurso, de aproximadamente uma hora, ela embarcou. Na estação Canoas, se me lembro bem. Confesso que mal reparei na garota, de princípio. Mas, à medida que os trilhos iam sendo deixados para trás, notava que havia algo incomum naquela mulher, que aparentava ter cerca de 30 anos. Esguia e de pele clara, os cabelos vermelhos teimavam em se rebelar, devido à tempestade.

Ela vestia um casaco de lã, ensopado. As calças, assim como minha bermuda, eram de brim. Usava um sapato marrom, daqueles que as mulheres adoram. A mulher segurava um guarda-chuva azul entreaberto, rente as pernas. O balançava compassadamente, como se tocasse uma melodia: a canção da alma.

Seus olhos tinham uma cor azul clara, límpidos como as águas do mais escondido dos rios. Olhavam serenamente para o nada. A mulher não sorria, mas sua expressão dizia o contrário. Transparecia uma felicidade plena, como se seus pensamentos estivessem voando.

À medida que começava a observar com mais atenção aquela mulher, via que ela estava feliz. Seus olhos transluziam uma alegria que há muito não via em alguém. Era como se ela estivesse revendo em sua memória um maravilhoso filme. Seria algo que ocorrera há bem pouco tempo? Ou uma lembrança de muitos anos que ela recordava em seu momento cordial? Não sabia dizer ao certo.

Confesso que aquela cena me intrigou. Comecei a idealizar o que ela estaria pensando. E como num passe de mágica, transportei-me imediatamente para os confins do imaginário. Viajei a tal ponto, que me tornei espectador da película de vida daquela mulher. A chuva dava um tempero especial à cena.

A mulher estava no parque. Sentava ao lado de seu amado, junto ao pé de uma árvore. Riam como nunca. Trocavam carícias amorosas enquanto dividiam uma maçã do amor. Ele mal conseguia comer, devido ao aparelho recém colocado nos dentes.

Enquanto observava a cena, dava-me conta de quão belo era o lugar onde estava. A paisagem era linda. O parque era rodeado por árvores tropicais, que contornavam um lago de águas turvas. Devia ser primavera, pois o cheiro de jasmim e as árvores floridas completavam a sensação de paz no lugar. Consegui identificar rosas, hortênsias e margaridas. O filme era antigo. A mulher aparentava ser mais jovem que o rapaz. Deviam estar próximos à casa dos 20 anos, recém saídos de uma adolescência rebelde.

O rapaz, como mal conseguia morder a maçã, precisava recorrer sempre ao auxílio de sua amada. Ela delicadamente mordia a base açucarada da maça do amor e dava a ele, na forma de um beijo doce. A cada mordida, um longo e demorado beijo acontecia.

Ao ver o terceiro beijo enlambuzado, confesso que senti ciúmes do rapaz. Mas logo passou, de tão impressionado que eu estava. Desprendi meus olhos do casal para voltar-me ao fundo da cena onde, o sol começava a findar. Seria aos poucos substituído por uma lua cheia.

O trem pára. E como num passe de mágicas, meus pensamentos regressam das lembranças daquela mulher. Ela continua lá, sentada e olhando para o nada. Incrível. Creio que a mulher teria ficado ali a tarde inteira, recordando.

A chuva continua forte. Mais pessoas entram e saem do trem, que retoma seu trajeto. Na estação seguinte, a mulher deixa a película em que estivera envolta. Retorna a realidade e, pela primeira vez sorri. Um sorriso angelical, como se tivesse despertado de um lindo sonho.

O trem para novamente. A mulher pega suas coisas e respira fundo. Abre o guarda-chuva e sai do trem, desaparecendo na penumbra.

Revanche

Marcos e Layla se encontram para mais uma partida de xadrez. Ele querendo revanche. Ela, distancia. A partida disputada meses atrás ainda estava em sua memória. Não queria estragar sua vitória amarga. Preferia desfrutar dos louros da conquista ambígua. A disputa seria realizada num café qualquer da Zona Norte de Porto Alegre.

O acaso coloca os dois frente a frente, no local mais propenso aos grandes jogadores: a livraria. No momento em que Marcos aproximava-se da entrada, o celular vibra. É uma mensagem de Layla, dizendo que esperava por ele, como quem procura livros. Ao terminar de ler o texto, ele a visualiza em sua frente. Disfarça, como se não tivesse percebido. Mas olha, pensando o quão bela Layla é. Os cabelos, lisos e vermelhos, enalteciam sua pele clara e seus olhos azuis. Distraída e sem perceber que Marcos a rodeava, a jovem contemplava os milhares de títulos da livraria.

- Não poderia haver melhor lugar para te encontrar. – exclamou um Marcos eufórico por uma revanche. Afinal, ele havia assinalado no verso de seu caderno de fotografia tudo o que queria ponderar com Layla durante o embate, bem como todas as novas jogadas que havia treinado.
- Eu estava procurando um livro. – respondeu Layla, com um belo sorriso nos lábios carnudos.
- Há milhares de títulos, dos quais a maioria nunca lerei. Que tal irmos ao nosso passeio? – perguntou Marcos.
- Claro!

Os dois saíram da livraria à procura de um café nas proximidades. Caminharam por cerca de dez minutos, até que finalmente encontraram um lugar aconchegante e que suportasse um tabuleiro de xadrez. Marcos havia trazido seu jogo em sua mochila. O havia guardado cuidadosamente, como quem resolve retirar do cofre um punhado de jóias. Afinal, não era todo dia que passeava com seu precioso tabuleiro de mármore negro.

- O que vão querer? – perguntou a atendente do café.
- Salada de frutas! – respondeu prontamente Layla.
- Tem suco de laranja? – perguntou Marcos, ainda na dúvida se deveria pedir o menu.
- Desculpe, hoje não temos. – respondeu a mulher.
- Então eu vou querer um café.
- Pode ser um cappuccino?
- Claro.

Enquanto aguardavam o pedido, os dois conversavam sobre o tempo que havia se passado desde a última partida de xadrez. Uma conversa trivial, sem mencionar o que mais queriam dizer um ao outro: o motivo que os levara a ficar longe durante o tempo que passou. E mais, o porque estavam distantes.

Em meio a conversa, Marcos resolve abrir a mochila.

- Olha só o que eu trouxe: meu tabuleiro de xadrez. Quer jogar?
- Hoje não. – respondeu Layla, olhando para o vazio.
- Por quê?
- Não estou a fim. Cansei de jogar. Aliás, eu nem sei jogar. Tive sorte da outra vez. – respondeu Layla, com sua mania torpe de agir na defensiva.
- Tudo bem então.

Marcos colocou novamente o tabuleiro na mochila. Nem chegou a retirar as peças. A torre, o bispo, o cavalo e o rei não chegaram a ser postos à mesa. E com eles, guardou todas as coisas que pretendia dizer naquela tarde.

Segunda-feira

Durante os últimos dois anos a rotina de Everton tem sido a mesma: de casa para o trabalho e do trabalho para cara. Levanta-se cedo, lá pelas sete da manhã. Toma seu café com torradas e sai para o serviço. Pega sempre a mesma lotação, a das 7h40min. Religiosamente.

No caminho, vai lendo uma Zero Hora. Afinal, não poderia ficar de fora das notícias. É auxiliar de escritório em uma firma de advocacia. Emprego que fora conseguido há muito custo pelo pai.

Sempre mergulhado nos processos, Everton não tem tempo para sair. Em dois anos de trabalho, nunca havia tirado uma folga. Mas este final de semana seria diferente. Estava de folga no domingo.

Sábado. Chega em casa. São 20hs. O que fará? Ficar em casa? Nem pensar. Everton quer sair, mas com quem? Seus amigos há muito não os vê. Resolve ir ao cinema. Mas qual filme assistir? Nem mesmo sabe quais estão em cartaz.

Tem uma idéia: resolve ir à casa de Ana, uma velha paixão de escola, que não via há anos. Convida-a para ir ao cinema. Os dois assistem ao filme ‘Eu, tu, eles’, em cartaz nos cinemas de toda a Porto Alegre.

Após assistirem ao filme, Everton pensa o que fará no domingo. E como não havia nada planejado, convida Ana para passar o domingo com ele. Ela aceita. Finalmente, após dois anos, teria um final de semana. Mas muito mais que isso, era com Ana, sua paixão adolescente.

No domingo, leva-a numa churrascaria no centro. Eles se divertem como nunca e, antes de saírem de lá, se beijam. O resto da tarde prometia. Vão juntos ao parque, onde passam uma tarde maravilhosa.

A noite não deixa por menos: um jantar a dois, que acontece de forma agradabilíssima. Porém, como num conto de fadas, já passam das 23hs. Amanhã Everton tem que trabalhar novamente.

Ele acompanha Ana até a casa dela. A despedida é demorada. Ana diz que morrerá de saudades e pergunta:
- Nos veremos amanhã?
- Adoraria. Foi o melhor fim de semana dos últimos dois anos de minha vida. Sinto algo maravilhoso, que não sei explicar direito. Mas amanhã é segunda-feira. Preciso voltar ao trabalho.

Everton baixa a cabeça e sai. Sua vida volta à triste rotina.

______
* Escrito em 2002.

A gravata

Matheus estava indo para o escritório onde sua mulher Adriana trabalhava. Pretendia fazer uma surpresa. No caminho, passou na floricultura e comprou uma dúzia de rosas vermelhas. Dirigia-se alegremente ao escritório. Ao entrar, escuta vozes vindo da sala presidencial.- Arruma a minha gravata?
- Claro, com o maior prazer. Assim você vai ficar um gato!
Matheus aproxima-se da porta, desprezando o que ouvira a pouco.
- Oi amor, resolvi fazer uma surpresa!
Ele observa Adriana arrumando a gravata de seu chefe Rodrigo. Estão em uma cena muito angelical.
- Mas o que é que está acontecendo aqui?

Logo, Matheus dá-se conta do óbvio que havia perguntado. Estava tudo muito claro, ele estava sendo traído. Pior, os pegara no flagra. Ele atira as flores ao chão e indaga:
- Como sou um idiota! Eu vindo feliz lhe visitar e você me traindo com esse engomadinho. Como eu não percebi isso antes? Todos aqueles cerões no trabalho. Agora está tudo muito claro. Traidora!

- Matheus, você está muito agitado. Acalme-se.
- Que me acalmar. Eu vi tudo. Você arrumando o terno dele para parecer que nada aconteceu.
- Ela só estava arrumando a minha gravata. Explicou Rodrigo, completamente constrangido pelo fato.
- Vocês pensam que eu sou tonto?
- Claro que não. Mas Matheus, você sabe que eu te amo. Como eu poderia…
- Chega! Não adianta tentar se explicar. Eu vi tudo. Com meus próprios olhos. Ninguém me contou.

- Ela só estava arrumando a minha gravata.
- E tu cala essa boca, porque senão tu vai apanhar. Disse Matheus, num tom desesperado.

Ana, a recepcionista do escritório ouve os gritos de Matheus. Num ato de grande curiosidade ela entra na sala. Logo junta os dados: estava diante de um marido que acabara de ser traído. Ela sempre pensar o que diria a um marido traído caso presenciasse uma cena destas. Como agiria. Se o consolaria. Ou “daria nos dedos dele”. Tinha uma grande mágoa, pois seu antigo namorado a havia trocado por uma garota dez anos mais nova que ela.

- Acalme-se Matheus, isso poderia ter acontecido com qualquer um. Mas foi com você. A culpa é dela. Após a fala, Ana abraça Matheus, consolando-o.
- Ela só estava arrumando a minha gravata.
- Não entendo o que eu fiz para você pensar isso. Alguma vez lhe dei indícios de que te traia?

- Já chega! Eu não quero mais saber de explicações. Vocês dois na maior intimidade. Eu vi tudo. O que queria que eu pensasse? Que só estava arrumando a gravata dele? Não sou ingênuo. Está tudo tão claro. Você acabou de me trair.

- Não seja idiota. Voe está distorcendo tudo. Eu não te traí.
- Cala essa boca! Eu vi tudo.
Matheus vê uma tesoura em cima da mesa de Rodrigo e a pega.
- Larga essa tesoura Matheus.
- Eu vou acabar com tudo isso.
- Você está louco? Vai acabar com o quê?

- Ela só estava arrumando a minha gravata.
- Já disse que chega. Não há explicação que vai me convencer de que o que eu vi nesta sala não era uma traição.
- Ele tem razão. Vocês dois estavam aí, a sós na sala trocando intimidades e agora querem negar? Disse Ana, ao aproximar-se de Matheus.

- Te liga garota. Tu não sabe de nada do que aconteceu. Respondeu Adriana, enfurecida.
- Acha que sou tonta, como o teu marido? Eu sempre desconfiei que vocês tinham um caso. Pensa que eu não sei que ficas até altas horas com ele, sozinhos no escritório?
- Sei disso, mas nós só estamos trabalhando num projeto muito importante. Nunca me passou pela cabeça trair o Matheus.

- Já chega! Sem mais explicações. Tu só ta piorando a coisa. Indagou um Matheus transtornado.
- Ela só estava arrumando a minha gravata.
- Eu já mandei tu calar a boca!
Matheus arma a tesoura para o golpe.
- Para Matheus. Eu já disse que não te traí.
- Ele viu tudo. Quer negar agora? Acho que não tem mais volta. Já era guria. Disse Ana.
- Não está vendo que ele quer matá-lo? Ajude-nos, por favor! Gritou Adriana, num ato desesperado para conter Matheus.

- Chega Adriana. Ele tem que pagar.
- Mas meu Deus, pagar por quê?
- Não se faça de sonsa, eu vi tudo.
- Quantas vezes vou ter que dizer que não houve nada entre nós?
- Ela só estava arrumando a minha gravata.
- Eu vi tudo. Querem negar? Não há mais como. O tempo acabou.

Matheus pega a tesou e crava no peito de Rodrigo. A morte é quase que imediata.
Na cadeia, Matheus explicava a seus novos amigos que estava preso por ter matado um engomadinho que estava tendo um caso com a sua mulher. E que, por sorte, pegara os dois no flagra. Mais alguns instantes e teria sido feito de idiota. Talvez ainda estaria sendo traído. Conseguia imaginar a cena: os dois depois de mais uma transa, rindo dele.

A notícia de que Rodrigo fora morto por Matheus se espalhou por toda a cidade. Todos os seus amigos comentavam o final trágico que teve. Seu único crime: querer que arrumassem a sua gravata.

A criatura

- Sangue! Isso no chão é sangue. Onde estão todos? O que aconteceu?

As portas do laboratório se fecham. Um pânico terrível toma conta de Dr. Charles que, após conseguir se controlar começa a percorrer a sala do laboratório. Percebe que tudo fora destruído. Nos computadores, fendas provocadas por garras, de algo não humano. Os frascos contendo DNA dos animais estavam todos quebrados. Tinham sido atirados ao chão. Ao lado da mesa principal, um braço humano. Estava estraçalhado. Provavelmente era de um de seus colegas. Ao desprender seus olhos do braço, vê que o vidro que protegia os cientistas da criatura estava quebrado.

De repente um barulho de garras ecoa na sala.
Toc. Toc. Toc. Toc…

- Meu Deus, o que eu fiz? Todo o projeto de minha vida e é isso o que acontece? Após dez anos tentando realizar a experiência. Quando finalmente tinha conseguido com sucesso reunir o DNA de um tigre e de um tiranossauro é isso o que acontece?

Dr. Charles estava perplexo. Uma mistura de desespero com arrependimento. Afinal, fora muito tempo de reclusão, sem dar atenção às suas filhas, com a fixação de brincar de deus. Seu sonho era criar uma criatura capaz de ser um assassino natural, mas que pudesse ser controlado. Sua idéia era poupar vidas. Utilizar a criatura em guerras, poupando a vida dos milhares de soldados que morriam inutilmente nas batalhas.

Mas ele acabara de descobrir que estava errado. Como poderia querer controlar uma criatura com um instinto tão assassino. Um predador natural?

Quanto mais Charles pensava no horror que causara, mais alto era o som que ecoava na sala.
Toc. Toc. Toc. Toc. Toc. Toc…

- Tenho que corrigir meu erro. Vejamos o que resta no laboratório, que ainda não está destruído. Sim, a velha nitroglicerina. Preciso corrigir o meu erro antes que seja tarde demais.

O som fica cada vez mais próximo.
Toc. Toc. Toc. Toc. Toc. Toc. Toc. Toc. Toc…

Charles reúne os componentes necessários para explodir o laboratório. Sua vida passa em sua mente. Seus filhos, seu modo de vida. O porquê iniciara a experiência. Mas principalmente, o que acontecerá se não destruir tudo. Ele precisava terminar o que começou.

A criatura entra no laboratório. É assustadora. Charles treme de pavor. O monstro pula em sua direção, com uma única coisa em mente. Aquilo que fora programada para fazer: matar.
De repente, um único som ecoa: boom!

__________
* Conto escrito em 2002.

S.O.S. Amazônia

A notícia correu como um rastilho de pólvora: a Amazônia, pulmão da humanidade, estava para ser tomada pelas tropas americanas. Era apenas uma questão de tempo para que a operação iniciasse. E nós, os moradores da selva tínhamos o dever de impedir.

- Se esses “gringos” invadirem a floresta, o que será de nossa selva?
- Calma Zé, o povo indígena jamais deixará que isso aconteça.
- Mas Ubiara, eles possuem armas e muitos homens. Somos um alvo fácil.
- Aí é que você se engana. Nós temos o maior poder que a natureza nos oferece: temos seus recursos naturais.

- Como assim?
- Se eles têm lanchas para entrar via naval, nós temos o deus Sol, que fará com que os rios fiquem impróprios para a navegação.
- Mas e os tanques?
- Se eles têm tanques, nós possuímos o deus do Vento, que colocará obstáculos, impedindo que eles penetrem na selva.

- Certo Ubiara. Mas mesmo assim, há o que temer. Os americanos têm um enorme exército, pronto para atacar. O utilizarão sem piedade. O povo indígena não está preparado para a guerra.

- Não se aprece. Podemos não ter armas de fogo a nosso serviço, mas temos a fauna, que se encarregará de nos proteger, caso eles consigam entrar na mata.

E não é que Ubiara tinha razão. Quinze dias depois, o exército americano desembarcou na costa brasileira. A floresta Amazônica era seu objetivo. Trouxeram tanques, barcos e milhares de soldados.

Mas não é que, para nossa surpresa, as forças da natureza interviram: os rios secaram de tal forma, que se tornou inviável a navegação. O vento soprou muito forte, derrubando árvores, impedindo os tanques de penetrar na mata. E os soldados, bem os soldados, se viram obrigados a recuar, tamanha era a manifestação dos animais, que estavam a proteger a selva. Mesmo com armas, as tropas americanas não conseguiram combater as onças, cobras, pássaros e diversos outros animais que ali estavam para defender a Amazônia.

O poder de união daqueles que amam a floresta Amazônica foi maior que o daqueles que pretendiam torná-la um centro lucrativo, sugando suas riquezas.

___________
* Conto escrito em 2002.

Uma noite de inverno

Direto do baú do tempo, retirado dos cadernos velhos do distante ano de 2002, “Uma noite de inverno”. Para quem já leu, é uma chance de rever. Para quem não conhece, é uma oportunidade de conhecer um estilo que pouco uso por aqui: contos. Boa leitura.

Uma noite de Inverno

Não quero nem devo lembrar aqui porque me encontrava naquela barca. Só sei que, ao redor, tudo era silêncio e trevas. E me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável e tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um rapaz, uma moça com sua irmã e eu.

O rapaz, de aparência mórbida, vestia uma capa preta de lã. Sentava ao fundo, inquieto. A moça estava à minha frente. Sentada ao seu lado, a irmã, que a abraçava tentando espantar-lhe o frio. A mais jovem vestia apenas um vestido que mal tocavam as canelas.

Fazia frio. Logo de início pensei em oferecer-lhes o meu casaco, mas não o fiz. Por quê? Não sei. A viagem ia passando e a cada instante, sentia-me mais incomodado em não ter dado meu casaco à menina.

Uma névoa começa a pairar sobre a embarcação, esfriando ainda mais os já frios bancos da barca. Resolvi fumar um cigarro. Mas, ao pegá-los, a caixa de fósforos cai ao chão. A menina se desvencilha dos braços confortáveis de sua irmã e os junta do chão:

- Seus fósforos, o senhor deixou cair.
- Obrigado! – As palavras me faltaram. A menina num gesto inocente pôs a meu ver todo meu egoísmo.

Suas mãos tremiam, tamanho era o seu frio e eu, perplexo com tão belo gesto. Dei-me conta então, que deveria ter-lhe oferecido o casaco antes.

- Você está tremendo de frio. Tome o meu casaco!
- Não! Eu não devo.
- Como não? Pegue.
- Muito obrigado, não sabemos como lhe agradecer, é que estava quente à tardinha e eu e minha irmã nos atrasamos. – disse-me a moça.

Voltei-me para a moça que agarrara a mão da menina. Tinha cabelos castanhos, olhos verdes, brilhantes como duas esmeraldas. Notei que suas vestes eram simples, mas de muita elegância.

- Você não é daqui, é? – perguntou-me a moça, com um lindo sorriso.
- Não. Estou só de passagem, to indo visitar minha tia. Ela mora do outro lado do rio. E você, mora aqui por perto?
- Sim. Eu moro do outro lado do rio, subindo pela estradinha da direita. – explicou-me a moça.

Lembrei-me que quando criança, quando ia para casa de minha tia, brincava com uma linda menina de olhos verdes, que morava por perto. Só podia ser ela.

De repente, o rapaz levanta-se de seu banco, interrompendo o silêncio em que refletia.
- Dê-me a menina! Vadia. – gritou ele em tom ameaçador.
- Nunca. Afaste-se de mim! – respondeu ela apavorada.

E agora! Encontrava-me no meio de ambos, sem saber o que fazer. A moça apavorada parecia temer algo. O que fazer?
O rapaz tira uma arma do bolso da capa e ameaça atirar.

- Atire se quiser. Só me matando levará a Júlia. – falou a moça, colocando-se à frente da menina.
Ele engatilha a arma. Está prestes a atirar. Eu, num momento de descuido do rapaz, parti para cima dele, a fim de tomar-lhe a arma. Ele resiste. Durante a luta, dois tiros quebram o silêncio do rio.

O rapaz cai morto no chão e eu, olho para meu peito. Só sangue. Uma das balas me acertou. Caí ao chão, sem forças para levantar. A respiração começa a ficar ofegante.
Um flash-back de minha vida passa ali, diante de meus olhos. Era minha infância e via, na casa de minha tia, uma linda garotinha de olhos verdes, brilhantes feito esmeraldas.

A moça, num gesto de me socorrer, pega um lenço que tem no bolso e com as mãos, tenta estancar o sangue até terminar a travessia.
- É você! – disse quase já sem conseguir falar.
- Como assim?
- A bela menina que eu brincava quando criança no alto do morro.
- Meu Deus! Passei todos estes anos tentando encontrar-lhe e nosso reencontro tinha de ser assim?
A moça tira a mão de meu peito e beija-me.

Vou com um sentimento de felicidade, pois, minha última imagem foi a bela menina dos olhos verdes como esmeraldas.


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