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A fragmentação da cultura de massa

O jornalismo como conhecemos hoje não será o mesmo amanhã. Com o advento das novas tecnologias, a comunicação está mudando de uma forma inimaginável décadas atrás. O homem passou a interagir de outras formas. Vivemos uma época de desterritorialização do conhecimento. MacLuhan, em sua teoria da aldeia global previu há décadas este processo. O filósofo imaginou um mundo onde o homem deixaria de se relacionar no mundo real, passando a desenvolver inter-relações no simulacro. O processo reduziria o homem ao conceito de aldeia, através dos nichos. Tal conceito chamou de “aldeia global”.

Décadas depois, com o surgimento do www no início dos anos 1990, a aldeia global passou a ser algo tangível. Mas é na primeira década do século XXI, com o desenvolvimento da internet e o aumento de velocidade de banda, que o processo começa a mudar realmente. Mas isso significa que o homem não iria mais viver em sociedade? Ao contrário, o ponto principal em relação ao passado é que o homem começa a deixar a cultura de massa, para se interessar pela cultura de nicho.

Chris Anderson descreve esta fragmentação do conhecimento em seu livro “A Cauda Longa“. A teoria aborda este processo onde as pessoas, que até então se utilizavam dos meios de comunicação de massa, migram para a cultura de nicho, através de canais especializados, blogs e tudo aquilo que lhe interessar na web. Para Anderson, as pessoas não mudaram, pois a sociedade sempre foi fragmentada. O que mudou foi a tecnologia de acesso à informação e isto sim, fez com que as pessoas alterassem seus hábitos de uso dos meios de comunicação.

Em síntese, a teoria da Cauda Longa pode ser definida como a mudança da cultura dos sucessos para a cultura dos nichos. Antes desta multiplicidade de escolhas, as pessoas só tinham acesso àquilo que conseguia ultrapassar o funil da seleção do espaço na mídia. Tomemos como exemplo a música. Os arrasa-quarteirões são o modelo tradicional onde a indústria cultural sempre definiu o que era bom ou ruim. O conceito geral era o seguinte: se toca no rádio é música de qualidade. Se não toca, nem merece reconhecimento. Este pensamento causava homogeneização. Então, a música produzida que se encaixasse neste conceito padronizado era veiculada. Todo o resto, que abrange quase 90% da música produzida era simplesmente esquecido.

Mas e o cidadão? Não tem o direito de decidir ouvir o que gosta? E todas aquelas bandas que não conseguem produzir um sucesso. Suas músicas são realmente ruins? Como poderemos saber se não temos acesso a elas. A resposta está no desenvolvimento da internet e na redução do custo da produção de conteúdo. As ferramentas disponíveis atualmente possibilitam que qualquer pessoa possa ter um mini estúdio em casa. Isso possibilitou que diversas bandas, que não tiveram espaço na cultura dos sucessos arrasa-quarteirões, gravassem suas músicas e as disponibilizassem no universo online.

Com estas novas possibilidades, a escolha da decisão passou para as nossas mãos. Com um simples clique com o mouse, ou através de uma pesquisa no Google, podemos saber quase tudo sobre o que nos interessar. Recorrendo novamente à música como exemplo, observo a banda paulista “O Teatro Mágico“. Há seis anos, a trupe liderada por Fernando Anitelli é uma das precursoras no Brasil do movimento Música Para Baixar (MPB). Além de divulgar seu trabalho, o grupo tem por intuito promover o debate entre as bandas nacionais, fazendo com que elas se desenvolvam neste novo mercado, que é a internet, deixando de ser dependentes das gravadoras.

Até aí tudo bem. O TM conseguiu compreender a segmentação e buscou se inserir neste novo processo midiático. Já arrebata milhares de fãs por todo o país. As pessoas podem baixar gratuitamente suas músicas no site da banda. Mas como eles chegaram a este patamar? Foi através da divulgação boca a boca, dos blogs, sites de conteúdo. O Teatro Mágico nada mais é do que um reflexo da Cauda Longa da música. Não fazem sucesso suficiente para ser um modelo arrasa-quarteirões. Mas se utilizam bem da internet para promover seu trabalho na cultura de nicho.

O som que agrada aos meus ouvidos pode não agradar aos da pessoa ao meu lado. Neste ponto, a grande mudança se dá na possibilidade de escolha e aos caminhos inimagináveis que a internet pode nos levar. Ou você tem alguma dúvida de sem a produção independente na internet iria conhecer o Teatro Mágico ou os Móveis Coloniais de Acajú? Nos dois casos, música de qualidade em cultura segmentada.

O jornalismo online desempenha um papel fundamental neste processo. É cada vez maior o número de sites e blogs especializados que se destinam a discorrer sobre a cultura dos nichos. Estes universos não possuem um público tão denso como a grande mídia. Mas juntos, são uma nova força tão importante quanto. Os blogs especializados são o que há de mais atual em Cauda Longa no jornalismo. É lá onde as pessoas têm ao seu alcance opiniões, comentários e sugestões sobre o que não consegue ser inserido na cultura de massa. E que, necessariamente, pode ser bom ou ruim. A diferença é que nós é que decidimos filtrar o que é de nosso interesse.

O jornalismo e a internet

A primeira década do século XXI está sendo marcada por uma revolução tecnológica sem precedentes. A consolidação da Web 2.0 e o surgimento de novas tecnologias nos levam a pensar na comunicação de uma forma inimaginável antes. A interatividade se dá de tal forma que, uma pessoa no Brasil consegue se comunicar com outra no Japão em questão de segundos.

Pensando nesta multiplicidade que as novas tecnologias nos oferece, a professora de jornalismo online 2 da Unisinos, Cássia Zanon, propôs aos seus alunos um debate sobre a internet. Para tal, dividiu a turma em quatro grupos. As apresentações foram realizadas durante a aula desta quinta-feira (17), baseadas nos seguintes textos: Antagonismo entre “mídia clássica” e meio digital, O mito do texto curto, Uma breve introdução ao conteúdo na Internet e Cinco pontos sobre redes sociais na Internet.

O grupo 1 entende que o texto curto, com a utilização de hiperlinks, é a forma mais indicada para jornalismo na web. O aprofundamento do conteúdo ocorre de acordo com o interesse do internauta. Mas lembram que o texto para internet não é só uma transposição do texto impresso, como fazem muitos veículos ou jornais que possuem site. Três pontos são fundamentas: arquitetura da informação, usualidade e acessibilidade. É preciso ver sem se perder. A fusão destes quesitos, aliados a bons gráficos, vídeos, um visual limpo e com cores leves é a chave para se dar bem na web. Claro, sem esquecer o conteúdo. Os sites do Estadão e do Elpaís foram utilizados como os que mais se aproximam desta fórmula.

O grupo 2, do qual fiz parte, procurou analisar a questão do conteúdo e sua organização. Teria o texto mais denso morrido com as novas tecnologias? Será que um Schopenhauer não teria mais espaço? Uma das possibilidades que a internet traz é a segmentação. É cada vez mais comum as pessoas procurarem o que é do seu interesse. Então, é pertinente afirmar, que o internauta tem à sua disposição as mais variadas formas de conteúdo, ficando a seu critério escolher se quer ler um texto curto ou longo.

O grupo utilizou o hot site do ClicRBS sobre a crise do Piratini para explicar sobre a arquitetura da informação. As qualidades de criação, no que diz respeito aos infográficos, facilidade de acesso, histórico da crise e pessoas acusadas foi um dos pontos altos citados. Entretanto, no quesito acesso ao conteúdo, ficou devendo. É bem difícil encontrar o hot site. Sem falar que o que interessa ao internauta não está organizado de forma satisfatória. Como se faz para acessar as notícias relacionadas à crise? Elas não estão organizadas de forma a facilitar a visitação.

Por entender que é preciso pensar de uma forma mais completa a reportagem em internet, o grupo 3 crê que o G1 reúne os melhores atributos de organização de conteúdo e utilização dos recursos disponíveis. Mas não se esqueceu de citar o ClicRBS , que possibilita aos amantes de futebol acompanhar os treinos de seu time favorito pelo CoveritLive, trocando ideias com o repórter, num conhecimento compartilhado.

Por fim, o grupo 4, que defendeu o texto não linear como forma mais indicada para a web. O Guardian foi o exemplo buscado para definir jornalismo online, com textos de qualidade, imagens, links, anúncios e infográficos. Para eles, o site vai chamar a atenção pelo jeito que está desenhado. Contudo, sem conteúdo não sobrevive. Além disso, um site precisa, a cada instante, dar novas possibilidades ao internauta. Uma tendência é a inserção de ferramentas de interação com outros sites de redes sociais como twitter, facebook, blog e flickr.

Retomando o mito do texto curto, o grupo diz que há bons exemplos de texto longo na internet. O blog A Nova Corja, que fechou devido a processos, é um destes. Escrito para um público dirigido, utilizava basicamente texto. E nem por isso deixava de ser acessado.

Discussões à parte, os quatro grupos concordaram que estamos vivendo um processo de mudança no que entendemos por jornalismo e difusão do conteúdo e conhecimento. A internet possibilitou ao público se manifestar como nunca, expressando sua opinião, através dos espaços concedidos neste campo ainda pouco estudado, que é a internet. McLuhan previu esta desterritorialização do conhecimento muito antes de a internet tomar conta do mundo. Para ele, a relação entre os homens passaria a ocorrer de outra forma, a qual definiu como aldeia global. E hoje, qual é o limite da interação na web? E no final, onde iremos parar?


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